Money & Side Hustle
By K.P.

58,6% das ações individuais foram um desastre financeiro — por que esse número deveria mudar sua estratégia de investimento

O Número que Deveria Assustar Quem Quer Ficar Rico na Bolsa

Tem uma estatística que aparece repetidamente em análises de mercado sério, mas raramente chega aos vídeos de influenciadores financeiros: entre 1926 e 2022, 58,6% de todas as ações negociadas destruíram riqueza dos acionistas. Não apenas tiveram retorno negativo. Destruíram—isto é, perderam mais do que a inflação do período.

Se você está pensando em começar a escolher ações individuais porque "conhece sobre tecnologia" ou "tem feeling para o mercado", esse número merecia ocupar espaço na sua cabeça antes de fazer a primeira operação.

O Que Significa "Destruir Riqueza"?

Quando dizemos que uma ação destruiu riqueza, não estamos falando apenas de perder dinheiro no preço. Estamos falando de um retorno que, quando você ajusta pela inflação histórica do período, deixou você mais pobre em termos reais.

Exemplo concreto: se você tivesse investido R$ 10 mil em uma ação que rendeu 3% ao ano por 20 anos, mas a inflação foi 5% ao ano no mesmo período, você tecnicamente ganhou dinheiro — mas perdeu poder de compra. A ação destruiu sua riqueza.

Quando Hendrik Bessembinder analisou todo o histórico da bolsa americana de 1926 a 2022, a proporção era impressionante: uma maioria clara das ações não apenas não acompanhou a inflação, como ficou significativamente atrás.

Onde Foi Concentrada Toda a Riqueza?

Aqui vem a parte que inverte a narrativa comum.

Apenas 4% de todas as ações listadas criaram praticamente toda a riqueza do mercado. Não foi uma distribuição democrática onde "se você escolher bem" você ganha. Foi extremamente concentrada.

Pense no que isso significa: entre milhares de ações disponíveis, um punhado minúsculo fez a diferença. O resto? Maioria destruiu valor. Uma pequena fatia criou um pouco. E um grupo microscópico fez toda a diferença.

Categoria de Ações (1926–2022) Percentual do Total Resultado para o Acionista
Ações que destruíram riqueza real 58,6% Retorno menor que inflação
Ações com retorno mediano/fraco ~37% Ganho mínimo ou acompanhamento inflação
Ações que criaram riqueza significativa ~4% Praticamente toda a riqueza do mercado

Por Que Isso Importa (Especialmente para Iniciantes no Brasil)

No Brasil, o padrão é semelhante ao resto do mundo. A maioria dos investidores iniciantes que tentar escolher ações individuais na B3 vai fazer uma de duas coisas:

  • Ficar atrás do mercado: Escolher ações que naturalmente têm desempenho pior do que o índice (como o Ibovespa)
  • Gastar tempo e energia em pesquisa que não compensa financeiramente

Não é pessimismo. É matemática: se 58,6% das ações historicamente destruíram valor, sua probabilidade de acertar em um pequeno portfólio de escolhas próprias é estatisticamente fraca.

A evidência mostra que investidores individuais que tentam escolher ações costumam underperformar o mercado consistentemente. Não por acaso. Por estrutura matemática.

A Alternativa: Por Que os Números Apontam para Fundos de Índice

Se 4% das ações criaram praticamente toda a riqueza, então você gostaria de estar exposto a esses 4%. O problema é identificá-los antes de eles explodir—e a maioria dos investidores não consegue fazer isso consistentemente.

Uma forma diferente de pensar: em vez de apostar em qual ação específica será dos 4%, você pode investir em uma cesta que contém todas elas automaticamente.

Fundos de índice funcionam porque capturam o retorno do mercado como um todo—incluindo aquele pequenininho grupo de ações que fizeram toda a diferença histórica. Você não precisa adivinhar quais são.

Os Números em Números Reais

Digamos que você é um investidor brasileiro com R$ 50 mil para investir.

Cenário 1 (Escolha Individual): Você estuda empresas brasileiras de tecnologia, acredita que entende o setor, escolhe 5 ações. Historicamente, a probabilidade de que todas essas 5 estejam no grupo que criou riqueza real é extremamente baixa. Mais provável: você fica com 3 que destruíram valor, 1 que acompanhou inflação, 1 que cresceu moderadamente. Retorno final: abaixo do mercado.

Cenário 2 (Fundo de Índice): Você investe em um fundo que replica o Ibovespa ou em um fundo internacional que replica o índice global. Você captura automaticamente o retorno das ações que fazem diferença. Tempo gasto em pesquisa: mínimo. Retorno: alinhado com o mercado real.

Qual cenário você acha que vai acontecer mais vezes quando você repetir a decisão ao longo de 10, 20, 30 anos?

A Pergunta que Ninguém Quer Responder

Se você é um iniciante investindo com seu próprio dinheiro, qual é a sua vantagem contra:

  • Analistas profissionais com acesso a dados em tempo real?
  • Gestores de fundos com décadas de experiência?
  • Sistemas de computador que processam mais informações por segundo do que você lê em um ano?

Você tem uma desvantagem estrutural. A estatística de 58,6% reflete exatamente isso.

Especialistas na área descrevem a seleção de ações individuais como "um jogo de perdedor"—não porque você está fazendo algo errado, mas porque o jogo em si é matematicamente desfavorável para a maioria.

O Que Fazer Agora

Se você é iniciante em investimentos e está considerando começar:

  1. Comece entendendo seu horizonte temporal. Quanto tempo você deixará o dinheiro investido? Quanto precisa acessá-lo?
  2. Considere fundos de índice como base. No Brasil, você tem opções como fundos que replicam o Ibovespa ou índices globais. Eles custam pouco e entregam o retorno do mercado.
  3. Se quiser aprender selecionando ações, use dinheiro pequeno. Comece com 5-10% do seu capital investível. Pense nisso como uma "taxa de aprendizado" aceita, não como a estratégia principal.
  4. Acompanhe o resultado real. Não apenas o retorno das ações que escolheu—compare com o Ibovespa ou com um fundo de índice equivalente. Você vai ficar surpreso com a frequência com que fica atrás.

A Honestidade dos Números

58,6% de todas as ações destruíram riqueza real em um período de quase 100 anos. Isso não é uma opinião. É o que os dados dizem.

Se você quer construir patrimônio, a pergunta não deveria ser "qual ação vou escolher?"—deveria ser "qual é a forma mais eficiente, com menos tempo e menor custo, de estar exposto aos retornos do mercado?"

Para a maioria dos iniciantes brasileiros, a resposta é: um fundo de índice bem escolhido. Não é tão glamouroso quanto dizer que "descobriu uma pequena empresa que vai explodir", mas historicamente, é onde os números apontam.

Disclaimer

Este artigo é para fins educacionais e informativos e não constitui aconselhamento financeiro, de investimento ou fiscal. As informações apresentadas são baseadas em dados históricos públicos e análise de tendências, mas investimentos envolvem riscos e resultados passados não garantem resultados futuros. Antes de tomar qualquer decisão de investimento, consulte um consultor financeiro qualificado, um assessor de investimentos registrado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ou um profissional de impostos. As circunstâncias de cada investidor são únicas, e o que funciona para alguns pode não funcionar para outros. Verifique todas as informações regulatórias com fontes oficiais como o site da CVM ou do Banco Central do Brasil.