Money & Side Hustle
By K.P.

A regra dos 4% agora rende 4,7%: por que a taxa de saque segura atualizada de Bill Bengen muda as contas da aposentadoria antecipada

A regra que definiu a aposentadoria antecipada acaba de ficar mais generosa

Se você já leu sobre FIRE (Financial Independence, Retire Early) ou planejamento de aposentadoria no Brasil, provavelmente encontrou a "regra dos 4%". É aquele número mágico que sugere: se você poupar 25 vezes seu gasto anual, pode se aposentar e sacar 4% dessa carteira todo ano, ajustado pela inflação, sem ficar sem dinheiro.

Pois bem: o criador dessa regra acaba de dizer que ela estava conservadora demais. William Bengen, o pesquisador que inventou esse conceito há mais de 30 anos, atualizou sua recomendação para 4,7%. Para quem planeja viver dos investimentos, essa diferença não é pequena.

Os números: por que 4,7% em vez de 4%?

Vamos aos dados concretos, que é o que importa quando estamos falando de dinheiro real.

Bengen atualizou sua análise em 2025 levando em conta as mudanças nas taxas de juros, inflação e retornos históricos do mercado. A antiga regra dos 4% era baseada em dados que remontavam a 1926. Décadas depois, o cenário econômico mudou — e para melhor, segundo a nova pesquisa.

Aqui está o detalhe técnico: a taxa de 4,7% não é apenas um ajuste simples do número anterior. Ela reflete mudanças estruturais em como os ativos se comportam e em quanto você realmente pode gastar sem comprometer a longevidade do seu patrimônio.

Para um brasileiro que economizou R$ 1 milhão, a diferença é de R$ 30 mil por ano — uma quantia que não é desprezível quando você está vivendo de renda passiva.

O que mudou desde os dados originais?

A pesquisa atualizada de Bengen considerou períodos de teste mais recentes, incluindo cenários de mercado mais voláteis e diversos do que aqueles que fundamentaram a regra original. Em outras palavras: não era só teoria. Era preciso verificar se os números resistiam a mais dados históricos.

A regra dos 4% resistiu bem ao teste do tempo, mas a nova análise sugere que as condições atuais (incluindo taxas de retorno ajustadas e inflação mais controlável em alguns períodos) permitem um saque um pouco maior.

Um ponto crítico que Bengen mesmo enfatizou: muitos aposentados antecipados estão sendo "conservadores demais" e poderiam gastar mais sem comprometer sua segurança financeira. Se você já se aposentou com a regra dos 4%, mas está vivendo com menos, isso pode ser um desperdício de qualidade de vida.

Tabela: Impacto da mudança de 4% para 4,7%

Patrimônio acumulado Saque anual a 4% Saque anual a 4,7% Diferença anual
R$ 500 mil R$ 20 mil R$ 23.500 R$ 3.500
R$ 1 milhão R$ 40 mil R$ 47 mil R$ 7 mil
R$ 2 milhões R$ 80 mil R$ 94 mil R$ 14 mil
R$ 5 milhões R$ 200 mil R$ 235 mil R$ 35 mil

Esses números valem a pena calcular na sua planilha pessoal.

Isso muda o cálculo para aposentadoria antecipada no Brasil?

Sim, e bastante. Se você estava usando a regra dos 4% para definir seu número de aposentadoria (o patrimônio-alvo que precisa acumular), uma taxa de saque mais alta significa que seu alvo é menor.

Exemplo prático:

  • Com a regra dos 4%: Se você gasta R$ 5 mil por mês (R$ 60 mil por ano), precisa acumular R$ 1,5 milhão (60 mil ÷ 0,04 = 1,5 milhão)
  • Com a regra dos 4,7%: O mesmo gasto requer R$ 1,28 milhão (60 mil ÷ 0,047 = 1,28 milhão)

A diferença é de R$ 220 mil — quase 15% menos poupança necessária. Para quem está acumulando essa quantia, isso significa poder se aposentar antecipadamente alguns anos antes.

Mas há ressalvas importantes

Pesquisadores como a Morningstar também estudam essas questões, e nem todo especialista concorda que 4,7% é universal. A realidade é que a taxa segura de saque depende de:

  • Sua composição de carteira: Se você investe 100% em renda fixa (deixando Tesouro Selic, CDB ou Nubank de lado), seus retornos históricos são diferentes dos de quem investe em ações e fundos imobiliários
  • A inflação brasileira: O Brasil tem histórico de inflação mais volátil que os EUA. Isso muda o cenário
  • Seu horizonte de tempo: Bengen testou carteiras que duravam 30 anos. Se você planeja viver 50 anos de investimentos, talvez precise ser mais conservador
  • Suas despesas serem fixas ou flexíveis: Se você pode reduzir gastos em anos ruins de mercado, pode se permitir uma taxa mais alta

Em resumo: 4,7% é um número melhor que 4%, mas não é garantia. É um ponto de partida melhor para a conversa.

Como usar isso na prática

Se você já se aposentou com base na regra dos 4%, considere:

  • Recalcular seu orçamento anual: Você pode aumentar seus saques sem comprometer a segurança? Se sim, esse dinheiro extra pode melhorar sua qualidade de vida agora
  • Revisar sua carteira: A taxa de saque segura é melhor quando seus ativos estão bem diversificados e gerando retornos acima da inflação. Revisar anualmente com base em rentabilidades reais faz sentido
  • Ajustar pela inflação corretamente: Bengen mesmo destacou que a inflação é o maior inimigo do aposentado. Seu saque inicial pode ser 4,7%, mas precisa ser aumentado todo ano pelo IPCA (ou índice relevante para você)
  • Consultar um assessor local: As regras de imposto de renda no Brasil, os produtos de investimento disponíveis e suas circunstâncias pessoais podem exigir ajustes nessa fórmula

O que os números dizem sobre a segurança

Pesquisas como a da Morningstar continuam testando essas taxas contra históricos de mercado. A conclusão não é polêmica: sim, 4,7% é mais seguro que estava sendo praticado, mas segurança financeira é uma questão de graus, não de certezas absolutas.

O ponto de Bengen é direto: muita gente que poderia desfrutar mais da aposentadoria está deixando dinheiro sobre a mesa por ser excessivamente conservadora. Se você acumulou o patrimônio, pode usar mais dele.

Disclaimer

Este artigo é apenas informativo e educacional. Não constitui aconselhamento financeiro, de investimento ou fiscal. As taxas de saque seguras dependem de circunstâncias pessoais, composição de carteira, objetivos de vida e contexto econômico local. Antes de tomar decisões sobre seus investimentos, aposentadoria ou planejamento financeiro, consulte um consultor financeiro qualificado, contador ou assessor de investimentos no Brasil. Verifique sempre com fontes oficiais (Receita Federal, Banco Central do Brasil) antes de implementar qualquer estratégia fiscal ou de investimento.